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Indígenas Lançam Relatório E Contrapõem Dados “Oficiais” Sobre Impactos De Belo Monte


“Agora nós temos uma arma para combater com a deles”. A arma que Leiliane Juruna, a Bel Juruna, se refere é primeiro monitoramento independente para impactos da Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte sobre o território e o modo de vida do povo Juruna na Volta Grande do Xingu, lançado nesta quarta-feira (8) durante o seminário no XVI Congresso da Sociedade Internacional de Etnobiologia em Belém. 

Depois serem invisibilizados pelo empreendimento sobre os impactos que a barragem causaria na vida do povo Juruna, eles decidiram produzir seu próprio monitoramento embasado em pesquisa colaborativa e metodologia científica, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e famílias juruna da aldeia Mïratu.

O levantamento e análises dos dados sobre os recursos pesqueiros e a segurança alimentar possibilitou mapear a cadeia de impactos causados na vida dos indígenas depois que o rio Xingu foi barrado pela usina de Belo Monte. A pesquisa durou cinco anos, iniciou em 2013 e foi concluída em 2017.

Bel Juruna relata, por exemplo, que o rio Xingu na Volta Grande é controlado por comportas. A empresa Norte Energia é a responsável pela hidrelétrica, e a barragem interferiu na cadeia do ecossistema de diversas espécies de peixes, impedindo-os de se alimentarem, se reproduzirem e fazerem a desova.

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Bel Juruna na aldeia Miratu / Foto: ISA

Segurança Alimentar

A técnica de enfermagem conta que essa interferência do fluxo de água sem uma vazão mínima para alagar os locais onde os peixes se alimentavam fez com que o rio virasse um cemitério.

“O rio Xingu está virando um cemitério de peixes mortos e a gente não está se alimentando mais. Quando tem um pouco de peixe que a gente consegue pegar eles estão insalubres, às vezes estão se decompondo. Não conseguimos nos alimentar deles porque é inviável à alimentação”, afirma.

De acordo o documento, a “região da Volta Grande do Xingu é um dos lugares com maior biodiversidade do mundo. Das 63 espécies endêmicas de peixes conhecidas na bacia do rio Xingu, 26 só existem nas corredeiras da Volta Grande”.

O rio Xingu foi barrado em 2015. Ainda segundo o monitoramento, os dados apresentados apontam que em “2014 e 2015 o peixe era a principal fonte de proteína animal consumida, mas o quadro se alterou em 2016 e 2017”. “Esse resultado está diretamente relacionando ao fechamento do rio”.

Para Bel Juruna, seu povo é dono do rio Xingu: “Nós somos pescadores, vivemos do rio, tiramos nossa renda, nossa alimentação, nós temos uma grande ligação com o rio”.  Um povo que viveu com os peixes agora precisa de adaptar a viver no seco.

Ela fala que os Juruna não têm prática com a roça, o que fazem é apenas para complementar a alimentação. Ameaçados em sua segurança alimentar, as famílias passaram a ter que recorrer a alimentação da cidade e perceberam, a partir do monitoramento, que os indígenas começaram a apresentar doenças que antes não existia em sua população, como pressão alta, diabetes e furúnculos. Diante do quadro ela desenha uma imagem triste do cenário com base nos dados do monitoramento.

“Meus filhos não vão mais saber o que é se alimentar de peixe bom. As crianças não vão saber. Nossos filhos já vão crescer com doenças, vão ter a possibilidade de adoecer com mais facilidade dessas doenças que não tinha no nosso povo antes”.


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