full screen background image
Últimas notícias

Crítica | Tolkien é filme sobre amor e irmandade, e deixa de lado os livros


Humphrey Carpenter, um dos mais antigos biógrafos de Tolkien, escreve na primeira página de seu livro sobre o autor um excerto sobre o que o famoso escritor pensava a respeito de biografias. O senhor dos Hobbits nunca foi chegado a esse tipo de produção, principalmente quando se volta à crítica literária.

“Uma das minhas opiniões mais veementes é de que a investigação da biografia de um autor é uma abordagem inteiramente vã e falsa de suas obras”, aponta Tolkien.

Deve ser por isso que o filme que leva seu nome não versa sobre suas obras, mas foca na vida do autor. Tolkien é um longa que busca contar a história do criador de um dos ícones mais importantes da cultura no gênero de fantasia, dentro do universo de Senhor dos Anéis, O Hobbit e Silmarillion.

Participe do nosso Grupo de Cupons e Descontos no Whatsapp e garanta sempre o menor preço em suas compras de produtos de tecnologia.

Contudo, nosso escritor também é conhecido como um renomado professor de Oxford, pesquisador das línguas anglo-saxãs, linguística e etimologia. Um dos principais diálogos conhecidos entre Tolkien e o também professor C.S Lewis é quanto os nomes precisam ser carregados de significados. Birra que o escritor de O Hobbit sempre teve com o de As Crônicas de Nárnia.

Apesar de tantos temas a serem tratados, o longa não sorve nenhum deles na dimensão que merecem. Se você é um fã das obras de Tolkien e gostaria de uma pincelada sobre como nasceu O Hobbit e todo este universo, baixe suas expectativas. Por outro lado, se a delícia de reviver a história do autor é entender seu passado com as palavras, há pouco espaço neste filme para isso.

Tolkien é um filme de guerra, com nuances de romance e amizade, o qual calha de ser baseado em uma boa história real. No plano aberto, ele é honesto com a história que conta sobre Ronald, assim chamado pelo segundo nome pelos mais íntimos.

O longa brinca com basicamente três linhas narrativas: a da guerra; a do amor e a da amizade.

WWI

Uma das histórias mais conhecidas sobre Tolkien é como a Primeira Guerra Mundial teve uma grande influência sobre a sua vida. Talvez, este seja o aspecto melhor trabalho na trama. O filme brinca com idas e vindas entre o enredo principal e situações em que o personagem busca sobreviver e encontrar seus amigos nas trincheiras, sobretudo na Batalha de Somme, onde parte de seus principais amigos morrem.

A parte positiva do longa é que aqui se explora visualmente o que as biografias escritas não conseguem. A história de Tolkien com a Guerra é interrompida por conta de uma febre que ele tem, a qual causa alucinações. Tudo isso permite aos diretores lançarem mão de conceitos visuais: a guerra de Tolkien representada como uma batalha de Senhor dos Anéis.

Segunda Guerra é representada de forma metafórica entre os personagens de Tolkien (Foto: Captura/YouTube)

O efeito é bem bonito e quase nostálgico para quem não somente leu os livros, mas também acompanhou os filmes na telona. Em certos momentos, o jogo de câmera lembra cenas do próprio Senhor dos Anéis.

A revelia desta pincelada estética, nada de muito importante, tirando as mortes dos amigos, advém dos momentos de batalha.

Amor

Este é o segundo grande tema do filme. O longa fala sobre a relação de Tolkien com Edith, a mulher com quem conviveu durante toda a vida e veio a se casar. O filme brinca bem com a história dos dois, construída de forma bem shakespeariana, com base no amor proibido.

Ambos órfãos, os dois foram adotados por uma senhora de Birmingham, sendo, portanto quase que irmãos. Soma-se a isso o fato de que Tolkien é católico e a menina protestante, também um entrave para seus pecados.

Apesar de toda romantização, a química entre os dois funciona de forma muito gostosa. A menina, como uma órfã adotada como acompanhante de uma senhora da alta sociedade, acaba por desenvolver seus dons com a música.

Romance entre os dois é poético e funciona bem (Foto: Cpatura/YouTube)

É Edith quem traz para mesa dois temas profundos da vida de Tolkien. O primeiro é a relação da musicalidade das palavras. Em um certo diálogo, talvez no momento mais profundo de discussão sobre linguística do filme, é Edith quem explica para Tolkien que as palavras precisam de significado, não somente musicalidade.

A cena é um misto de sensações. Veja bem, um rapaz conhecido pela sua habilidade nata com o latim e línguas antigas, cujo conhecimento é testado vezes e vezes pela trama, não conhece o conceito mais básico da língua. Tudo bem que Saussure, conhecido como o pai da linguística, só viria a publicar seu livro mais famoso em 1916, estabelecendo esta relação de significante e significado.

Edith também aparece no enredo para jogar pequenos lampejos do que seria O Hobbit. A mulher era fã de Richard Wagner, compositor alemão. Em um de seus livretos mais famosos, o músico fala sobre a saga d’O Anel do Nibelungo, uma história sobre um anel forjado por um anão e cobiçado por vários poderosos. É esta ópera que ambos vão buscar ouvir, na qual acontece o primeiro beijo do casal.

Toda poesia e simbologia deste momento e outros cuidados fazem de Tolkien um filme muito sensível e cuidadoso com esse tema.

Sociedade

Toda a parceira entre os seus amigos também está muito bem representado aqui. Inclusive, o longa provavelmente é sobre isso. Tolkien tinha com outros três amigos um grupo chamado de Clube do Chá e Sociedade Barroviana, da sigla T.C.B.S. A ideia vem de reuniões, de certa forma, proibidas para menores de idade na Barrow’s Store, espécie de café da cidade. Por isso “Sociedade Barroviana”.

O grupo é apresentado com laços bem fortes entre os quatro, construindo o que seria o alicerce da vida de Tolkien. Não à toa, o longa recupera pausadamente o termo “sociedade” em alusão clara ao que seria a Sociedade do Anel no segundo grande livro do autor.

A relação dos amigos, bem como a vida conjunta na universidade, é o grande mote desta trama. Por conta disso, vale o aviso: se for assistir a este filme, vá com o pensamento de que ele é sobre esta amizade.

Os quatro firmam um pacto de “transformar o mundo” pela arte. Tolkien, o escritor; Geoffrey Smith, o poeta; Christopher Wiseman, o musicista; e Rob Gilson, o pintor. Deles, apenas Tolkien e Wiseman sobrevivem à guerra, sendo que o escritor leva os poemas de Smith para serem publicados de forma póstuma. Em homenagem ao amigo, ele também dá o nome de Christopher ao seu terceiro filho.

Sociedade criada entre os quatro amigos artistas (Foto: Cpatura/YouTube)

A relação e intelectualidade deles é bastante bonita e mostra o quão isso fez parte da vida do escritor.

Trilogia inacabada

Apesar desses três temas bastante fortes no longa, os pontos mais importantes ficam de fora do filme. O primeiro deles é a relação entre Tolkien e Lewis, quem viria a conhecer depois de começar a lecionar em Oxford. O filme, de certa forma, acaba exatamente nesse momento chave para a vida de ambos autores. É conhecido que foi o criador de As Crônicas de Nárnia quem estimulou Tolkien a publicar seus livros de fantasia.

Junto disso, a relação de Tolkien com Christopher também não aparece aqui. Este é o filho que mais colaborou com o pai no desenvolvimento de Senhor do Anéis. É inclusive para seus pequenos que Tolkien começa a criar este mundo, na epopeia infantil de O Hobbit.

O enredo erra ao dar um ar catártico e genial à criação de seus livros, o que aparece bem de passagem no final. Quase que uma assinatura para quem ainda não havia entendido quem era aquele cara na telona.

O ponto é que Christopher é peça chave para história de sucesso das escritas de Tolkien, sendo conhecido por ser muito mais trabalhoso do que genialista sobre suas obras. Ele não é famoso por ser aquela pessoa que senta e derrama toda a sua história no papel de uma vez. Durante a Segunda Guerra, ele e seu filho trocaram inúmeras cartas, com participação por vezes de Lewis sobre o que seria a trilogia do anel, as palavras, os nomes, os enredos.

O problema é que o filme traz o efeito eureca para mesa, diante de um autor sem lampejos do tipo.

Por fim, Tolkien é um filme de potencial que fica pelo meio do caminho. Traz um enredo gostoso, mostra um autor jovem e suas descobertas amorosas, fraternas e linguísticas. Contudo, preferiu apostar no clichê dos dois primeiros temas.

Mostra romance, mostra aventura, mas traz pouco da profundidade do que se sabe abertamente sobre o autor. Para passar o tempo, é um enredo gostoso. O melhor que se vai ver de Tolkien este ano.

Contudo, como biografia, parafraseando o próprio biografado, “é uma abordagem inteiramente vã e falsa” do autor.

O longa é dirigido por Thomas Karukoski e estrelado por Nicholas Hoult no papel principal. O filme estreia em 23 de maio nos cinemasde todo o Brasil.



Fonte




Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *