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Brasil desenvolve um tipo particular de tecnologia: o racismo intelectual – Blog do Dunker


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O racismo não é apenas uma atitude sistemática de preconceito e discriminação de pessoas segundo sua cor de pele ou origem étnica. Ele é também uma tecnologia.

Um conceito prático e básico para definir o que é uma tecnologia afirma que esta é uma maneira de ampliar ou controlar habilidades humanas, de modo que instrumentos, signos ou máquinas fariam de forma mais rápida, eficiente ou segura o que o ser humano, em estado de nudez e desamparo, faria de modo mais lento, irregular ou precário.

Este conceito não determina a valência moral das habilidades ou interesses humanos. Por isso podemos entender o racismo como uma tecnologia discursiva e política que amplia, aprofunda e generaliza interesses e aspectos sombrios do ser humano.

Diante da infinita dificuldade de entender outra cultura, em toda sua complexidade e ao risco de descobrir nela aquilo que, com tanto esforço, suprimimos ou censuramos na nossa própria, surge a tentação tecnológica de dizer que o outro, no fundo, pertence a outra categoria. Desde então podemos suprimir direitos, derrogar empatia ou silenciar sofrimentos porque, afinal, ele pertence a uma de nossas obscenas categorias privadas do inumano: animais, monstros, estrangeiros e demais criaturas que têm a característica de nos incomodar.

Com isso acompanho a ideia do pesquisador de comunicação da UFBA (Universidade Federal da Bahia)  Tarcízio Silva de que, afinal, a tecnologia tem cor sim. Ela não é um instrumento neutro a ser usado para o bem ou para o mal, simplesmente porque como dispositivo de exageração e controle de nossos interesses ela extrapola o bem e o mal que nos faz produzir e renovar tecnologias.

Segundo autores como o historiador camaronês Archille Mbembe [1] e a antropóloga brasileira Lilia Schwarcz [2], a criação de uma mentalidade que separa, hierarquiza e justifica diferenças entre raças é parte da biopolítica ocidental, inerente ao processo de colonização. Tudo se passa como se para justificar relações de poder e distribuição não equitativa de direitos e bens simbólicos fosse necessário um discurso.

Uma certa concepção de mundo e de vida, na qual a igualdade universal entre os direitos humanos pode ser aplicada de modo diferencial, depende de alguma explicação sobre a origem da desigualdade. Um explicação que fosse suficientemente simples e que se apoiasse de forma tão engenhosa nas dificuldades que todos nós temos para lidar com as diferenças e estrangeiros dentro de nós mesmos, que seria sentida como natural, quando desdobrada na relação com o outro.

Exemplo na prática

Quando receberam as ideias de liberdade e equidade, provenientes da Revolução Francesa, iniciada em 1789, os habitantes da colônia francesa de São Domingos (hoje Haiti) iniciaram uma revolução que pusesse em prática tais ideias, abolindo a escravidão e postulando a autodeterminação de seu país, ainda que em lealdade à França. Napoleão ordena então uma violenta represália contra os insubordinados, enviando tropas para coibir a insurreição. Mas na noite do ataque os soldados franceses escutam seus oponentes haitianos, liderados pelo lendário Tussaint de Louverture, entoarem a marselhesa, o hino libertário francês. Não se sabe ao certo se isso teria insuflado a dúvida ou a identificação, mas o fato é que o exército napoleônico, que havia vencido prussianos e espanhóis, é derrotado.

Imagem de Toussaint Louverture no John Carter Brown Library (Reprodução)

Iniciada em 1791 e terminada em 1804, com a independência da colônia, gostaria de ver nesta aventura, que foi severamente punida pela metrópole, a contrapartida periférica e talvez a verdadeira primeira revolução libertadora do ocidente. Ou seja, a mesma tecnologia política e discursiva que gerou a queda da Bastilha criou a revolução de São Domingos, bem como a contra-revolução que destruiu aquela que era, até então, a colônia mais rica e mais produtiva do império francês.

Quando olhamos para a atual situação de censura e bloqueio de manifestações artísticas, intelectuais e religiosas no país não me parece suficiente evocar o direito à liberdade de expressão, como se a censura fosse apenas uma política de governo que seleciona arbitrariamente que tipo de informação deve ser veiculada e como. Isso acontece, repetindo capítulos mais atrasados de nossa história, mas o mais grave é que isso cria uma tecnologia de pensamento, que se instala como uma espécie de gramática racista para além de uma política de Estado local, que cedo ou tarde passará. É isso que chamo de racismo intelectual.

Ele não se mostra apenas na demissão de professores que ensinam Marx e outros autores indesejáveis em nossas universidades (sim, isto está acontecendo), mas na ideia de que pessoas se definem por autores que eles seguem, estudam ou praticam. Assim como há um colorismo inerente ao discurso da raça, começamos a pensar o teor de vermelhitude de nossos autores, o grau de pureza daqueles que aderem a uma corrente de pensamento ou uma escola de reflexão. Os cursos de psicologia começam a declarar, abertamente, que precisam impedir a entrada de novos psicanalistas (ou cognitivistas, tanto faz). A ideologia não se realiza mais no tipo de articulação entre as ideias e sua conexão com a realidade, no modo com as usamos como “instrumentos” para pensar. Elas se tornam marcadores segregativos do que as pessoas são: feministas, gayzistas, pós-modernos, evangélicos, politicamente corretos.

É o racismo intelectual que impede que o grupo Porta dos Fundos faça um vídeo representando Jesus Cristo com homossexual. É o racismo intelectual que adere certas palavras a certos proprietários remidos de seus sentidos. É o racismo intelectual que se expande como um vírus que atravessa esquerda e direita em uma mesma gramática conspirativa, denunciativa e irresponsável.

O legado intelectual do bolsonarismo, com suas ideias toscas e seus ministros vulgares, não é tão deletério quanto a disseminação do racismo intelectual que ele concorre para estabelecer como linguagem de base. Sua definição filosófica poderia ser equivalente da inversão da fórmula do universalismo, proposta por Paulo, em carta aos Gálatas: “Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” Mas em vez de ler aqui a suspensão do nacionalismo (judeu ou grego), o grito decolonial (escravo ou ou livre) e a crítica do binário de gênero (nem homem, nem mulher), o racismo intelectual afirma que tudo se resume a ser judeu ou grego, que só existem escravos e senhores e que nada escapará ao confronto entre homens e mulheres.

[1] Mbembe, A. (2017) Políticas da Inimizade. Lisboa: Antígona.

[2] Schwarcz, L.M. (1993) O Espetáculo das Raças. São Paulo: Companhia das Letras.



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