O trabalho precisa ser visto como um elemento de realização, e não de adoecimento. Esse equilíbrio deve ser promovido por políticas públicas e pela conscientização das empresas sobre os riscos de insistir em jornadas desumanas.
A proposta de redução da jornada voltou a pauta nos últimos dias.
A redução da carga horária de trabalho deve ser prioridade do Congresso em 2026. Pronta para ser votada no Plenário do Senado, uma proposta de emenda à Constituição aumenta de um para dois dias o descanso mínimo semanal — preferencialmente aos sábados e domingos. E diminui de 44 para 36 horas o tempo máximo de trabalho semanal, sem contar horas extras.
De acordo com a PEC 148/2015, o fim da chamada escala 6×1 ocorrerá de forma gradual. No ano de publicação do texto, as regras atuais se manterão. Já no ano seguinte, o número de descansos semanais passará de um dia, como é hoje, para dois dias na semana e a jornada começará a ser reduzida. Apenas seis anos depois os novos direitos estarão plenamente instituídos.

A PEC foi aprovada em 10 de dezembro na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com relatório do senador Rogério Carvalho (PT-SE). Antes de ser promulgado e passar a valer, o texto ainda precisa passar por duas votações no Plenário do Senado e mais duas no da Câmara, com o voto favorável de pelo menos 49 senadores e 308 deputados.
Mas ainda não há definição clara sobre a proposta que vai a votação. Segundo o próprio relator, que é líder do governo no Senado, o Palácio do Planalto deve enviar um novo projeto de lei em regime de urgência constitucional para acelerar a tramitação.
É o projeto que mais vai mexer com a vida dos brasileiros. Serão 38 milhões de trabalhadores [contratados pela Consolidação das Leis do Trabalho — CLT] beneficiados. Sem contar os 120 milhões de brasileiros que, de alguma forma, terão ganho com a redução da jornada.
(Fonte: Agência Senado)
Reduzir a jornada é repartir ganho da produtividade com trabalhadores
A luta pelo fim da jornada 6×1 trata de algo simples: dignidade. Quando se explica claramente o que significa a escala 6×1, a sociedade compreende de imediato. É uma rotina pesada, que compromete a saúde, a convivência familiar e a qualidade de vida.
Desde a Constituição Federal de 1988, a jornada de trabalho no país não foi reduzida. Nesse período, a tecnologia transformou os ambientes de trabalho, a produtividade cresceu de forma expressiva e os resultados econômicos avançaram. O que não avançou na mesma proporção foi o tempo de descanso do trabalhador. É legítimo discutir que parte desse ganho de produtividade se converta em mais qualidade de vida.
A experiência do movimento sindical mostra que nenhuma conquista relevante aconteceu de forma isolada. A política de valorização do salário-mínimo, avanços sociais e direitos consolidados ao longo das últimas décadas foram fruto de atuação conjunta.
Também é importante enfrentar um discurso recorrente: o de que ampliar direitos inviabiliza empresas. Esse argumento já foi usado contra férias, 13º salário e outros direitos que hoje fazem parte da realidade brasileira. A história demonstra que garantir direitos não enfraquece a economia; ao contrário, fortalece o mercado interno, amplia o consumo e promove desenvolvimento com justiça social.
A luta pelo fim da 6×1 não é um debate abstrato. É uma discussão sobre tempo de vida, saúde e reconhecimento e de interesse de toda a sociedade. E, como sempre ocorreu nas grandes conquistas da classe trabalhadora, ela só avança com organização, consciência e unidade.