E A RELEVÂNCIA DE SE COMBATER CONTEÚDOS MISÓGINOS NAS REDES SOCIAIS VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: QUANDO O ABSURDO VIRA ROTINA
A violência contra a mulher continua em evidência no país — e o mais preocupante é o quanto ela tem sido naturalizada no cotidiano. A grande maioria das mulheres têm medo de sofrer algum tipo de violência em situações comuns do dia a dia.
O crescente número de casos de violência contra mulheres, tem chamado atenção e exige medidas concretas. Entre tantos crimes, recentemente a mídia noticiou o caso de estupro coletivo em Copacabana, no Rio de Janeiro, que chamou a atenção pelos dizeres da camiseta de um dos presos com a frase ‘Regret Nothing’ (Não se arrependa de nada) associada a grupos machistas.
A expressão aparece em discursos da chamada “machosfera”. Cunhado pela primeira vez em 2009, o termo descreve uma rede de comunidades de interesse masculino online. (Fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/03/09/reu-por-estupro-coletivo-se-entregou-usando-camiseta-que-dizia-em-ingles-se-arrependa-de-nada.ghtml)
Temos visto que a violência contra as mulheres também se dá em ambiente digital. A presença constante de conteúdos misóginos nas redes sociais tem contribuído para banalizar a violência, transformando o que deveria causar indignação em algo tratado como “normal”. Aos poucos, reforçam-se estereótipos, desigualdades e uma cultura de tolerância ao desrespeito.
A repetição desses conteúdos provoca um efeito perigoso que é a dessensibilização social, a violência deixa de chocar. A empatia diminui, o senso crítico enfraquece — e o problema se perpetua.
Entre os jovens, o impacto é ainda mais alarmante. Em fase de formação, muitos acabam absorvendo visões distorcidas sobre gênero e relações sociais. O que deveria gerar indignação passa, muitas vezes, a provocar riso ou indiferença — um sinal claro de que algo está fora do lugar.
Mesmo com maior acesso à informação, muitas vítimas ainda se culpam. expressões como “não é não” se popularizaram, mas, na prática, a responsabilização interna persiste.
No ambiente digital, as redes sociais revelam seu papel ambíguo. Ao mesmo tempo em que ampliam o debate e oferecem apoio, também abrem espaço para a atuação de agressores. Muitos foram os comentários contra a mulher de Itumbiara/MG, por exemplo, que teve os dois filhos assassinados pelo marido, com jogo de culpa e julgamentos.
Outro elemento preocupante é o uso do humor como disfarce para a violência. Piadas com teor misógino reduzem a gravidade das agressões e ajudam a normalizar discursos discriminatórios. O humor pode ser ferramenta de conscientização — mas, quando reforça preconceitos, se torna aliado da violência.
A sensação de impunidade também alimenta esse ciclo. Muitas mulheres deixam de denunciar por acreditarem que precisam de provas materiais, o que nem sempre é possível, especialmente em casos sem agressão física.
Casos recentes mostram que esse comportamento persiste até mesmo em espaços públicos e esportivos — ambientes historicamente marcados pela predominância masculina, onde práticas sexistas ainda são frequentemente toleradas.
Diante dessa realidade, o enfrentamento da violência contra a mulher exige respostas mais rápidas e eficazes, e a agora também e não menos importante, no ambiente digital, com remoção ágil de conteúdos ofensivos e responsabilização dos agressores. Além disso, é fundamental investir na capacitação contínua de profissionais para identificar, acolher e proteger as vítimas.
Mais do que um debate, trata-se de um compromisso coletivo. Naturalizar a violência nunca pode ser uma opção.
fonte: https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/enquanto-82-das-mulheres-dizem-ter-medo-de-violencia-humor-na-internet-banaliza-o-problema/

